A Prefeitura Municipal de Vitória nos fornece um exemplo do uso burro dainteligência de dados. Na verdade, trata-se de um uso com fins de arrecadação, o que tem lá sua inteligência.
O problema é que o discurso vendido pelo VT é o da informatização a serviço da eficiência, o que nem de longe é o que foi e que deveria ter sido feito. Vamos aos fatos:
1) O comunicado oficial no site da PMV
[...] Nos aparelhos (smartphones), os agentes vão registrar os dados encontrados, como número de focos e os depósitos de água existentes. Será transmitido via satélite e chega on-line a uma base com informações do imóvel e focos encontrados.
Segundo o secretário municipal de Saúde, Luiz Carlos Reblin, com os dados transmitidos em tempo real será possível monitorar, diariamente, o número de focos e os depósitos predominantes. “Atualmente, realizamos o levantamento quatro vezes ao ano, como preconiza o Ministério da Saúde”, afirmou.
Os imóveis serão cadastrados na primeira visita. “Teremos como saber a reincidência nos imóveis e os depósitos predominantes por imóvel e bairro. Além disso, saberemos exatamente de quanto em quanto tempo fazemos inspeção nas residências”, explicou o secretário.
Esta é mais uma ação de combate à dengue na capital. Além disso, já é possível identificar as ruas com maior infestação de mosquito adulto, por meio do monitoramento inteligente da dengue. Outra ação é análise virológica do mosquito que permite saber qual o tipo de vírus que circula no município e em quais locais.
(grifo por minha conta)
Não.
No máximo, pode-se dizer que é mais uma ação de arrecadação para a Prefeitura. Não há inteligência nenhuma em plotar em um mapa online dados frios e desconectados sobre qualquer coisa.
Todo mundo já recebeu a visita de um agente de saúde. Ou pelo menos deveria. Em síntese, eles visitam todos os endereços de uma região. Se conseguem acesso, orientam aqueles que andam na linha e notificam os relaxados. Se esses últimos repetirem o mau comportamento nas próximas visitas, poderão ser multados.
O que o novo sistema faz é substituir o bloquinho de notificação por umsmartphone. Ao invés da equipe na base da secretaria de saúde conhecer os relaxados no final do dia (ou no mês que vem, dependendo da velocidade do processamento dos dados), terão acesso à blacklist da dengue em tempo real. Onde está o “inteligente” do “monitoramento inteligente” descrito pelo Secretário Reblin? Apenas na velocidade de emitir a multa.
Vejamos o porquê.
2) A inteligência de qualquer coisa: comportamento preditivo
Se a saúde é um problema de política pública, em tempos ultraliberais como os nossos isso significa basicamente despesas para o governo. A inteligência de dados, na análise mais lugar comum e mais despreparada possível, precisa contribuir para a predição de fenômenos e para a tomada de decisão anterior às consequências daquele fenômeno.
Em termos leigos, nós ouvimos a previsão do tempo para sair de casa e levar o guarda-chuva, ainda que naquele momento faça sol. Pode até não chover, mas se ocorrer estaremos preparados. Mais ainda: eu não correrei o risco de molhar alguma coisa que não é à prova dágua e evitarei um prejuízo (financeiro, normalmente).
O prejuízo nas políticas públicas de saúde ultraliberais se resume a “gastar” dinheiro atendendo o cidadão nas unidades básicas municipais, para os casos simples, e nas internações nos hospitais estaduais, nos casos crônicos. A idéia toda dosmartphone, que em si mesmo já representa um gasto (o custo do aparelho + plano de dados + arquitetura de TI) deveria minimamente contribuir para que a ida ao posto ou a internação do cidadão fosse evitada, e não para agilizar a notificação e multa.
Como isso seria possível?
3) Conceitos de inteligência
Posso ser reducionista em prol da objetividade e me restringir a dois conceitos fundamentais de inteligência. O primeiro é o perseguido por boa parte das pesquisas em inteligência computacional, computação de alto desempenho, sistemas distribuídos e afins. Nesse contexto, estamos interessados em super computadores, bases de dados imensas e algoritmos que fazem consultas e cruzamentos incríveis a partir de uma entrada simples de dados como uma pergunta do tipo “Onde há focos de Dengue nessa região?”. Estou falando de um Deep Blue ou de um Watson, guardadas as devidas proporções entre os dois produtos da IBM.
A outra perspectiva, das neurociências cognitivas, está interessada não em super processamento ou amplas capacidades de armazenamento, mas em raciocínio, puro e simples. Não temos nenhuma Matrix no cérebro e mesmo assim somos capazes de reconhecer um rosto dentre um repertório de milhões, inclusive quando estamos em péssimas condições (andando, no escuro, a pessoa envelheceu ou engordou) ou quando o estímulo original foi há muito tempo.
Boa parte da nossa capacidade para a tomada de decisões é baseada em padrões. Nossos neurônios processam informação numa velocidade infinitamente inferior a qualquer computador moderno; nossa memória nem de longe comporta ospetabytes atuais; e apesar disso cruzamos diferentes fontes de informação, mesmo incompletas, com ruído ou confusas, e encontramos padrões que orientam nosso comportamento (recomendo a leitura do trabalho do Vernon Mountcastle pra quem gosta dessa discussão).
A perspectiva que defendo aqui não é a da inteligência força-bruta, que indexa o mundo todo pra depois pensar no que vai fazer, estilo Deep Blue. Defendo que uma coleta de dados essenciais e um cruzamento organizado em busca de padrões resolveria o problema com metade do esforço e o dobro da capacidade preditiva.
4) Agente de saúde da Matrix
Na prática, alguém interessado no assunto da dengue sequer precisaria equipar todos os agentes com smartphones ou mapear todas as regiões. O primeiro passo seria observar os registros de atendimento nas unidades de saúde sobre os possíveis casos da doença. Sabendo o local de residência do possível infectado, a área automaticamente deveria aparecer como foco de investigação daqueles agentes munidos do smartphone. Se é um estudante, a área da escola também deveria surgir na tela. Se trabalha, o local de trabalho deveria aparecer. Obviamente os trajetos e vizinhanças também contam.
Após a visita dos agentes, a unidade básica continuaria a monitorar os prontuários e acompanhar se algum novo caso em qualquer um dos locais correlacionados aos casos anteriores (casa, escola, trabalho, vizinhança, trajetos) aparece. Se for o caso, os agentes retornariam e até multariam os relaxados.
Depois de alguns meses, qualquer um poderia sugerir políticas públicas preventivas não só para a dengue, mas para qualquer enfermidade, especialmente as de contágio social. As localidades que tradicionalmente apresentariam casos de dengue em tal época do ano deveriam receber a visita 30 ou 60 dias antes, para evitar os casos (e as multas). O resultado das ações em um bairro seriam medidas pelos atendimentos das unidades e vice-versa.
Alguém poderia argumentar que o mapeamento proposto é o “começo” de tudo. Eu discordo. O começo de tudo seria informatizar os prontuários, que são uma fonte de dados infinitamente mais rica e já em poder de prefeitura. Seriam ZERO agentes com smartphone e mesmo assim teríamos condições de fazer ações preventivas só a partir daqueles registros. #epicwin
Na prática, se as unidades de saúde e os agentes tivessem acesso às mesmas informações, não seria necessário nem o smartphone. O médico John Snow fez muito mais com muito menos ainda no séc XIX em Londres para combater um surto de cólera.
Em síntese, inteligência não se faz com computadores e GPS, mas com ações coordenadas das entidades responsáveis e análise apropriada dos dados corretos.
Não existe inteligência sem capacidade de predição.