Realidade aumentada [em quê?]

Data: July 6th, 2010 | Autor:

Pra mim, a grande questão sempre é o que está sendo aumentado na realidade? O conceito de augmentation, de Douglas Engelbart, sugere que tecnologia deve ampliar as capacidades humanas de conhecer, pensar, comunicar, trabalhar… Quando penso em realidade aumentada – ou virtualidade aumentada, que pra mim faz mais sentido considerando os produtos disponíveis – sempre vislumbro novas oportunidades para ver o que não era possível ver, experimentar o que não estava próximo, manipular o que é muito pequeno ou muito grande e assim por diante.

Maquetes analógicas e eletrônicas, croquis, vistas e plantas são soluções amplamente utilizadas por corretores de imóveis para tentar vender a idéia do empreendimento. O desafio é ajudar o cliente a prever, por meio de simulações, o que está comprando: onde vai trabalhar, cozinhar, dormir. Apartamentos decorados são um avanço importante, desde que não usem mobiliário fora de escala (o que é relativamente comum).

Na perspectiva do cliente, todas as estratégias visam melhorar a percepção sobre aquilo que será adquirido. Sou contra os folders de apartamentos de R$ 200 mil entregues no sinal, simplesmente por acreditar que não é o tipo de mídia que influenciará a decisão. A cidade e o interior dos carros ficam sujos, pessoas ficam o dia inteiro no sol planfletando e não necessariamente algum imóvel é vendido por isso. Existe a desculpa de gerar emprego, mas é conversa furada. Não é possível que não haja outra forma de divulgar um imóvel sem usar panfletagem em pleno século XXI, contratando a mesma quantidade de gente por mais do que R$ 20/dia e um tubo de Sundown (sem contar os dançarinos de peruca e as sinalizações humanas).

Precisamos de outras ferramentas de simulação e é nesse ponto que acredito nos avanços da tecnologia. No entanto, não acredito que usar um helicóptero para sobrevoar um marcador gigante de realidade aumentada seja o caminho. O prédio se propõe a ser inteligente, então a sustentabilidade emergética deveria ser a preocupação zero.

A conta é simples: um helicóptero pequeno transportando quatro passageiros consome 55 litros de gasolina por hora. Oito horas de vôo = 450 litros = R$ 1050. Vamos supor que não mais do que 50 pessoas fizeram o passeio em 20 a 30min. Mais o custo da lona de 900 metros quadrados para o marcador além do aluguel do helicóptero. O custo de desenvolvimento da aplicação também pode ser considerado, mas não tenho a informação. Tudo isso para visualizar uma maquete virtual não necessariamente realista na tela de um notebook.

Quais foram os ganhos cognitivos dessa proposta para os investidores em potencial do empreendimento (além do passeio de helicóptero e o buzz em torno da marca da construtora)? Com o mesmo orçamento, não me parece tão improvável alugar a sala 3D do Cinemarq que fica no shopping em frente, ocupá-la com as mesmas 50 pessoas e oferecer um walkthrough tridimensional, com direito a óculos do Avatar e pipoca.

Por que não mostrar vistas animadas, ambientações, informações mais detalhadas e ricas pelos mesmos 20min de passeio. No final, um DVD para PC ou Playstation pra ver em casa, com calma. Mesmo uma maquete em Unity3D a ser explorada na web poderia ser interessante. Até premiar quem fechasse o negócio com um passeio de helicóptero não parece má idéia, já que esse pode ter sido o grande chamariz da estratégia. Mas do ponto de vista do uso da tecnologia para aumentar a capacidade humana, realmente ainda estamos no período sensório-motor (para mencionar as recentes discussões piagetianas no NIC).

Gostaria de esclarecer que não estou questionando a aplicação ou os resultados comerciais da ação, e sim a decisão de projeto frente aos benefícios cognitivos com toques de sustentabilidade para orientar o questionamento. A ação colocou pelo menos uma tonelada de CO2 na atmosfera e a pergunta que eu gostaria de fazer para cada um dos passageiros do helicóptero é: o prédio é melhor visto de cima?

Na web: Galileu, R7 e em breve no Guiness.

** Atualização em 06 de julho **
Opções como o ICube da EON parecem experiências ainda mais ricas:

Direto do blog da Ideo Labs.


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